O QUE, AFINAL, É SER UM TEÓLOGO LIBERAL?


É nitidamente perceptível como tem se enveredado, por entre as capelas protestantes, a persistente atribuição de uma alcunha pejorativíssima àqueles que se fincam em cosmovisões mais flexíveis sobre os objetos de fé cristãos. A coisa está do seguinte modo: se alguém se ergue da rigidez petrificante de sua estrutura eclesiástica e se dispõe a propor, sob a égide da livre interpretação, um novo horizonte a respeito de dogmas, ritos e tabus acimentados na idiossincrasia histórico-cristã convencional, então, pronto: o sujeito é um liberal e “não se fala mais nisto”.

Se, portanto, tua teologia não é exatamente a consubstanciada na Reforma, és um liberal; se, ainda que verossímeis, tuas ideias são tão impopulares quanto desafiadoras, és um liberal; se questionas, provocas ou sacodes as doutrinas consideradas “indebatíveis, concretas e irremovíveis”, i’m sorry my friend, tu és um liberal no sentido mais pós-moderno do termo – e ponto final.

Ocorre, no entanto, e justamente por haver uma troca sutil do conceito oficial pelo pós-moderno, um grave disparate semântico neste ultraje que tanto tem tomado fôlego nas catedrais tradicionalistas: o fato dos conservadores atuais se apoderarem de um vocábulo exclusivo de um instante teológico pretérito, emprestando-lhe um significado contemporâneo estranho às variáveis que levaram os conservadores passados a costurarem sua definição original, desvencilha a relevância histórica do termo de seu emprego adequado, permitindo que os leigos mais oligofrênicos maritaqueiem cada vez mais a estupidez de que tudo, exceto o que ecoa da garganta de seus pastores, é liberalismo.

Mas insisto que esta taxação frenética dos quadrados “guardiões da sã doutrina” está viciada e tende a bipolarizar o confronto teológico inteiro, concebendo-o entre eles, os mocinhos ortodoxos que preservam as verdades bíblicas em seus castelos de marfim, e a facção dos teólogos restantes, os vilões libertinos que maquinam a relativização e reinterpretação subversiva dos preceitos cristãos. Por estas e não por outras razões, presto-me aqui, a partir deste instante, a responder com, acuracidade técnica, o que, afinal, foi ser um teólogo liberal?

Participar do liberalismo teológico, a rigor, consistiu em negar, sobretudo, a paranormalidade e a mística do texto bíblico, pulverizando, por exemplo, a compreensão da literalidade de Adão e Eva e do evento da queda, além da factualidade das ocorrências sobrenaturais do Velho Testamento, suas teofanias, bem como os milagres dos Evangelhos, o nascimento virginal e a ressurreição, ascensão e segunda vinda de Cristo. Tal corrente, portanto, se ocupava de garimpar o conteúdo das Escrituras a fim de identificar e superestimar seu ouro historiográfico, tangível e experimentável, desprezando, por outro lado, seu teor espiritual, metafísico e transcendente.

Somadas a esta posição categoricamente materialista, entrava na dança ideias que repudiavam absolutos como o de que “só Cristo salva” ou mesmo o de que “a Bíblia é a revelação de Deus.” O livro “A busca do Jesus histórico” de Albert Schweitzer, publicado em 1906, é a obra que, pelo substrato de seu título, mais protagoniza a ideologia-mãe da escola teológica de pensamento liberal, ou seja, a descaracterização do Jesus da religião e de todos os adornos espiritualistas que o cristianismo costurou para o orbitar. O liberalismo de Schleiermecher, Ritschl e Troeschl (seus personagens pivotais) teve como seu precedente e maior trampolim o próprio Iluminismo, e agasalhou, concomitante e antagonicamente, o racionalismo de Descartes, Spinoza e Leibniz, e o empirismo de Locke, Berkeley e Hume.

Podemos asseverar, portanto, sem aquela educaçãozinha covarde do “politicamente correto”, que os liberais do século XVIII foram hereges no sentido mais gritante da palavra, porém não porque discordaram das interpretações bíblicas mais clássicas de sua geração, mas sim porque divergiram ativamente das postulações autoexplicativas, ultraevidentes e arquimilenares que preenchem a textualidade das Escrituras e que, por convenção espontânea, integram a redação do Credo Apostólico – miniconfissão dos “apóstolos” que foi reiterada pelos movimentos cristãos protagonistas dos milênios que até aqui se arrastaram.

Aliás, a verdadeira abstração de “heresia” que deveria invadir o vernáculo eclesiástico de todos os tempos é precisamente a desta concepção, isto é, heresia é o que destoa dos itens que alcançaram um nível exato de inquestionabilidade tal como supracitado e não aquilo que diverge de todos os elementos que o establishment cristão de uma seção da história julga como inalienáveis. Degusto, a este respeito, um dos ditos do teólogo luterano alemão Peter Meiderlin: “No essencial: unidade; nas demais coisas: liberdade; e acima de tudo: caridade.”

São, para tanto, interpretações de segunda importância (“as demais coisas” de que Peter fala) aquelas matérias que não foram trabalhadas minimamente por Cristo ou que não tiveram a devida atenção dos apóstolos ou que, na hipótese de terem sido razoavelmente exploradas, não produziram a clareza necessária para uma leitura investigativa futura – como é esta da qual somos reféns. Sobre tais análises, pesa, antes de tudo, a doutrina-primeira do “livre exame”, ideal tão cobiçado pelos reformadores e, ao mesmo tempo, tão retrocedido pelos seus epígonos.

Destarte, sugerir que uma senhora periodicamente espancada por seu marido se divorcie, ancorando-se não na teologia verbal de Jesus, mas em sua maior lição gestual, que é aquela que nos ensina que a vida vale mais do que qualquer princípio hermético, não é ser liberal; afirmar que a Bíblia é um livro divino com sotaque humano e que, perscrutando-a tecnicamente, percebe-se que Deus permitiu que ela carregasse resquícios da falibilidade de seus porta-vozes, não é ser liberal; insistir que o ideal do dízimo e sua referência caducaram peremptoriamente no advento da Nova Aliança e que agora a relação dinheiro-igreja deve ser comandada pelo resultado do choque entre possibilidade e generosidade, não é ser liberal; assumir, sobretudo, que igreja não é templo, que pastor não é sacerdote, que o domingo não substitui o sábado e que beber, dançar e jogar não constituem nenhum mal em si, não é – eu posso lhe assegurar – ser um liberal.


Contudo, sim, existem liberais hoje como à moda antiga e, a meu ver, todos devem ser encarados com o olhar desaprovador que merecem, sem prejuízo, é óbvio, de serem desacreditados publicamente. E se alguém se atrever, um dia, a me perguntar se sou conservador, saiba que minha resposta será sempre positiva, desde que a noção deste rótulo não consista em manter intocáveis tudo aquilo que a igreja pensa hoje, mas sim em fazer isto com o que ela, em suas épocas mais áureas e à vista de seus teólogos mais brilhantes, pensou de comum acordo.

Tome a sua cruz

Se, por um momento, olharmos para a história da fé judaico-cristã, nos depararemos, sem enormes esforços, com as vidas dos grandes pivôs do universo bíblico tatuadas com os mais terríveis sinais do sofrimento humano. Assim foi com a maior parte dos patriarcas, profetas, reis, juízes e sacerdotes da Antiga Aliança, não nos esquecendo, é óbvio, daqueles que se fizeram mártires, apóstolos ou não, nos primeiros séculos do Anno Domini.

A Igreja suou e sangrou demais por tanta perseguição no começo da era cristã. Tal era o tamanho da marcação, que os cristãos romanos foram acusados da autoria do incêndio de Roma em 64 A.D e até por desordens climáticas como as enchentes do rio Tibre e as secas do Nilo, sem evocar à memória, é claro, as atrocidades de que eram alvos por meio de boatos estratégicos, isto é, que adoravam um deus com cabeça de asno, que praticavam canibalismo, incesto etc. Tudo isto pode ser verificado, com maior afinco, no livro “Apologias”, que Justino escreveu para defender seus correligionários.

Até aqui, tudo bem. Mas pensemos: e, agora, no mundo moderno, onde as coisas melhoraram consideravelmente? Ou seja, que não há mais, como há milênios atrás, a gigantesca expressão de um terror bárbaro, perene e quase onipresente sobre os que professam a fé em Cristo? O que replicar à Jesus hoje quando ele nos convocar a tomar nossa cruz e o seguir? Sublinho esta questão porque o mundo contemporâneo venceu, pelo menos em quase toda a sua geografia, a tirania, a escravidão, a intolerância religiosa e tantas outras invirtudes afins.

Por efeito, com o advento hegemônico da legitimidade dos Direitos Humanos no planeta, atualmente só é possível encontrar resquícios de totalitarismo assumido e de nações sucateadas por governos primitivos, como, por exemplo, o Estado Islâmico e outras organizações conterrâneas, a Coreia do Norte e alguns países miseráveis do continente africano. Esta realidade nos faz concluir que se aquele chamado de Jesus foi universal e atemporal, outro significado daquela “cruz” deve imperar para nós, os crentes filhos da democracia.

De uma coisa sabemos sem espaço pra dúvidas: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus, serão perseguidos” (2 Tm 3:12). Entretanto, a perseguição não está intrinsecamente condicionada ao âmbito físico ou fisiológico. Aliás, ela pode, até com mais poder e fugacidade, manifestar-se para alguém na rejeição perante grupos cujo ingresso é interessante, diante de piadas vexatórias que humilham, através de isolamentos por pessoas avessas a seus valores, por meio de rótulos provenientes de preconceitos diversos, dentre um conjunto de outras ocasiões opressoras, que desnutrem a autoestima e o bem-estar, abatendo a alma a ponto de deixá-la aos auspícios da depressão.

“Tomar a sua cruz e seguir a Cristo”, portanto, além de significar ser espancado, cuspido, torturado ou ceifado em nome dele, é também admitir ser virgem com muito orgulho quando a galera da turma perguntar; é dizer, com largo sorriso, que não está entre suas práticas trair sua companheira; é, com firmeza, repreender o hábito de seus colegas de colar na prova da faculdade; é rejeitar, e com cara feia, o cigarrinho de Maconha que seus vizinhos insistem em lhe oferecer; é se recusar a participar das rodinhas de pornô-sap nos intervalos do trabalho; é não ser complacente com todos os seus parentes que aderiram à modinha “SKY gato”. Faça tudo isto com seriedade e fé e depois me diga se você não estará se sentindo abandonado e, ao mesmo tempo, atacado pelos que te cercam.

Um adendo mais que vital: não há nada que recorrermos, portanto, ao legalismo evangélico para satisfazermos a condição de “sofrer por Cristo”. Os currais pentecostais deste Brasil, desde os mais clássicos aos mais extravagantes, sempre imaginaram, ainda que imperceptivelmente, que, na ausência de um “status quo” de perseguição direta e oficial à igreja, seria preciso se proibir de tudo um pouco, a fim de produzir negações sacrificiais a elementos que, por eles mesmos, foram elevados ao degrau de impuros, almejando com isto agradar a um Deus cujo apego a seus filhos se dá na medida em que estes se desapegam das coisas materiais e estéticas deste mundo e sofrem por isto.


Ademais, ainda parece-me que não somente a verdadeira fé em Jesus incomoda muita gente e provoca confrontos morais incontroláveis dentro das pessoas, como também a própria esperança de que o messias ainda virá e a crença no Deus de Israel, ou seja, a fé do Judaísmo Ortodoxo, é escândalo pros cidadãos desta Terra, haja vista que, só por crerem no que criam, seis milhões e seiscentos mil judeus foram vítimas do Holocausto nazista. Não deixemos de nos lembrar aqui dos missionários cristãos que ainda são perseguidos à moda antiga em nações cuja ditadura ainda é a forma de governo vigente. Sobretudo, importa saber que, quer seja no corpo ou na mente, como bem disse Victor Frankl, “se você tem um porquê, então poderá suportar todos os comos”.

O Brasil estupidificando o Brasil

Deliciando-me com “A República”, uma obra irrepreensível escrita por Platão, aprendi que o termo “arte” para a semântica grega consistia, o que seria para esta geração, numa vulgarização de seu sentido atual, posto que lá na Grécia eles estendiam sua definição a todos os ofícios possíveis à época. Assim, a medicina, a ginástica, a carpintaria, a navegação e tutti quanti eram artes em sua concepção mais digna.

E sejamos íntegros: quando uma cultura qualquer categoriza seus elementos artísticos como “dignos”, a referência imediata que um cérebro adulto deve fazer a respeito é com a capacidade que estes elementos têm de ser apreciados como belo, coerente, provocativo, impactante ou inovador (estes três últimos, de maneira positiva, é claro), virtudes estas que jamais estiveram presentes nos rebolados, encochadas e letras do funk brasileiro.

E não venha me contestar papagaiando que isto é questão de gosto. “Gosto”, meu amigo, é a manifestação da liberdade que a mente tem de preferir uma coisa em detrimento de outra. Você pode até gostar, como um cão adora lamber o próprio saco, de toda a expressão do funk, mas quando confundir isto com arte, estará se enveredando na mesma tolice que uma criança comete quando ao ver um saco de boxe, logo pensa que se trata de um bexiga gigante de mortadela.

Trago este assunto à baila por ter sido surpreendido – e não sei como isto ainda é possível – pelo teor progressista e desconstrutivista (parece até um paradoxo) que a prova do último ENADE, o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes, aplicado a alunos de curso superior, revelou-me em seu conteúdo. Como se já não fosse absurdo suficiente preencher até o talo uma prova oficial do MEC com ideologia de gênero e de raça e até com uma flexibilização no trato com pichações urbanas, a banca do INEP pediu, na cara dura, uma dissertação que concebesse o funk como patrimônio cultural deste país.

Foi instantâneo: tão logo vi aquela proposta de redação, recordei-me das palavras carinhosas do Olavo: “A mentalidade desta gente faria os porcos vomitarem se lhes fosse servida no coxo.” Com “gente”, o grande Olavo de Carvalho quis se referir àqueles sujeitos que, neste caso, ignorando o fato inconteste de que os funkeiros em atividade fazem apologia descarada ao sexo sem vínculo e sem proteção, às drogas (lícitas ou ilícitas) para todos os paladares e olfatos e à legitimação de crimes cuja a experiência da favela os torna inculpáveis, eles planejam elevar este estilo musical à qualidade etérea de produção educativa.

Ora, pra quê você pensa que se presta a arte senão para extrair da realidade ou da imaginação objetos abstratos, que somente sozinhos, podem ser eficazmente contemplados pela emoção e compreendidos pela razão, a fim de que estas duas esferas do cérebro sejam educadas para o seu progresso? Se você não consegue aprender nada com o Djavan, se um seriado de J. J. Abrams, um quadro de Da Vinci, uma estátua de Aleijadinho ou os movimentos de uma bailarina russa não te sacodem, não te arrepiam e não lhe ensinam nada sobre viver, ou você é uma cadáver que ainda respira ou, na melhor das hipóteses, é só um idiota sem precedentes na humanidade.

O funk é apenas mais umas das abrasileirações que alguns civis malandros desta nação perpetraram a partir da importação de itens de cultura estrangeira (geralmente a americana). Já imaginou se no além para onde o lendário James Brown partiu, fosse lhe apresentado o “funk ostentação” como a sucessão latina de seu trabalho em vida? Seria uma reação agonizante pra ele saber que suas músicas eletrizantes que levavam seus fãs ao delírio, transformaram-se, em um povo não tão distante, num meio depravado de seus jovens se entregarem às suas vis inclinações.

Mas não se preocupem. Eu fiz a minha parte. Redigi a dissertação com o mesmo respeito com o qual o Neymar se dirige aos seus adversários em campo: sem reverência, sem piedade, sem modéstia. Não me acanhei diante da vulnerabilidade daquela circunstância. Fiz uma efêmera comparação de algumas rimas do funk nacional com a complexidade apoteótica existente em um concerto qualquer da Orquestra Filarmônica de Moscou. Aí finalizei, respirei fundo, dei um sorriso de canto e pensei comigo: o examinador desta prova vai pirar! 

Os quatro homens

Acredito que, assim como o movimento abortista tenta regularmente desfazer a idiossincrasia universalmente aceita, embora raras vezes sistemática, de que a vida não surge espontaneamente no feto, mas que está substancialmente embutida nele mesmo enquanto embrião e até como célula (pois é isto que o espermatozoide é), grupos com o feminismo e o gayzismo, procuram sorrateiramente desfazer a concepção homogênea do que é ser homem para o mundo. Utilizando-se de vários expedientes, eles almejam apontar um suposto caráter relativo em elementos absolutos, que se ratificam pela consensualidade perene entre a própria humanidade. Visto isso, faz-se necessária uma breve demonstração que possa reposicionar os quatro conceitos do vocábulo "HOMEM" a fim de firmar sua significação histórico-filosófica.
 
O primeiro requisito para que um ser vivo emocional-racional-espiritual, isto é, o espírito do homo sapiens, possa ser alcunhado de "homem", é nascer humano, o que, como já é uma condição elementar, é inevitável para ele. Assim sendo, quando se afirma que "o homem é, por natureza, corrupto" ou que "em 1969, o homem pisou na lua" ou ainda que "o homem é a única espécie do reino animal que produz lixo e que se autodestrói", a referência é atribuída à humanidade, ou seja, ao par de gêneros masculinos e femininos, de modo que ambos preenchem esta definição de maneira indistinta.

Por outro lado, quando começamos a falar em "gênero", a conversa tende a se aprofundar mais, visto que, neste caso, o ato de diferenciar os gêneros e prosseguir investigando apenas os indivíduos do sexo masculino, é a mola propulsora para conceituar o "segundo homem". Ser homem nesta fase, portanto, é atender aos aspectos biológicos e fisiológicos definidos por um padrão cromossomal inegavelmente absoluto (XY) e universalmente perceptível através das características físicas do biotipo, da voz, da pelagem, da locomoção etc.

Depois destas duas definições, o ser humano do sexo masculino deverá passar por uma terceira qualificação. Esta etapa diz respeito ao ato deste indivíduo optar, ou em alguns casos "preferir involuntariamente", por se relacionar amorosa e sexualmente com indivíduos do mesmo sexo ou do oposto. Então, quando este sujeito (o ser humano do sexo masculino) se inclina para desejar relações com pessoas do sexo feminino, ele confirma a sua predisposição natural não alterada por distúrbios comportamentais ou patológicos, e torna-se, por excelência, um heterossexual. Este é o terceiro homem.

A quarta e última categoria de HOMEM consiste na posse e exteriorização da "macheza". Vou explicar. Não estou me atendo ao "machismo" enquanto forma rudimentar do ser humano do sexo masculino e de preferência heterossexual impor suas vontades às mulheres. Falo de ser macho como contrário de ser passivo, impotente, sem expediente, enfim, pusilânime. Refiro-me ao macho que protege, produz e procria, não ao valentão do lar, ao barrigudo de bigode no sofá, ao marido que de tanto desprazer, acaba estuprando, além da genitália, a vida e a liberdade de sua companheira.

Estes são os "quatro homens" cuja conceituação quadrifase preenche as lacunas da nomenclatura universal do termo "homem" segundo respectivamente as abordagens teológica (o homem enquanto ser humano), biológica (o homem enquanto portador do par de cromossomos "XY"), psicológica (o homem enquanto heterossexual) e, por fim, a comportamental (o homem enquanto "macho provedor"). Este conjunto de perspectivas clássicas se manifesta uniformemente nos quatro cantos do mundo, malgrado o feminismo e o gayzismo histerico-militante estejam esfarelando-o gradativamente, desmaculinizando a noção transcultural e transgeracional do que é, de fato, ser um homem completo.

ARGUMENTOS - O mundo é feito deles

Constatei, já há bastante tempo, que a capacidade de argumentar em favor daquilo que se pretende defender, é uma habilidade que não pode ser desenvolvida, pelo menos não nos limites mais extensos do seu alcance, pelo mero raciocínio lógico ou pela observação enxuta dos fatos. É inegavelmente necessário estudar a propedêutica da filosofia, de onde emana os instrumentos científicos de apreensão da verdade para todas as outras ciências e para a qual todas elas convergem de volta. Identifiquei, ainda, que muitos senhores tidos como "acadêmicos", "letrados", "educadores" e "cientistas sociais" Brasil afora, sabem bem rastaqueramente do que se trata uma oratória preenchida com uma retórica contundente ponto a ponto. 

O mundo é guiado pelos argumentos, isto é, pelo poder do convencimento. Assim sendo, torna-se consideravelmente relevante para o êxito pessoal que qualquer sujeito conheça razoavelmente a âncora introdutória da argumentação científica, catalogando, para tanto, as definições de lógica, sofisma, falácia, paradoxo etc., além de saber que "de um fato não se deduz um valor"; que "a parte não caracteriza, necessariamente, o todo (nem o inverso)"; que "o elemento deve ser observado integralmente para ser apresentado como real"; que "espaços-tempos diferentes podem produzir realidades divergentes"; que "probabilidade não é sinônimo de factualidade", dentre uma vastidão de outros princípios.

Quantas pessoas não imaginam que, por estarem inseridas em núcleos acadêmicos diversos ou em esferas de debates constantes, têm oratória fluente e retórica aplaudível! Veja: um professor mentecapto de uma matéria inicial de determinado curso, conclui que, porque todos têm ou podem ter opiniões discrepantes, a verdade é relativa e não absoluta. Puxa vida! Afirmando isto, o professorzinho em questão, que deveria ser o primeiro protagonista do nivelamento superior de seus alunos, não só está caindo na mais lúgubre das incoerências, permitindo que qualquer calouro constate que ele, na verdade, está propondo uma sentença absoluta, como também, mais contraditoriamente ainda, está autorizando a todos que discordem dela, pois a verdade, segundo ele, é relativa.

Este tipo de gente é capaz de ignorar a estrutura lógica própria do argumento que eles mesmos proferem. Você já deve ter se deparado com situações em que foi preciso evocar as palavras, ipsis literis, de uma regra, a fim de lembrar as pessoas de como as coisas devem ser feitas. Aí, então, surge sempre do meio da massa ouvinte uma voz dissonante que, com o tom de descobridor do átomo, estufa o peito e vomita: "mas toda regra tem exceção". Humm! Você coça a cabeça, conta até três e, para não ser grosso, reexplica a regra apontando para a moralidade de se fazer o que é certo. Na verdade, nem precisava. Se é regra que "toda regra tem exceção", então, esta própria regra tem exceção, logo, haverá regras paras as quais não haverá exceção.

É possível escutar outros absurdos como este em debates amadores sobre a existência de Deus. De um lado, um jovem idiota que se diz ateu por dedução lógica, mas que o é por ter tomado as dores das vítimas de guerras religiosas, da pedofilia na Igreja Católica e do enriquecimento ilícito de muitos pastores evangélicos (como se Deus tivesse matado, assediado e roubado o dinheiro do povo); do outro, um religioso legalista que nunca leu meia dúzia de livros por achar que a letra mata, além de, sobretudo, acreditar que fala as línguas dos anjos (no plural). Lá no clímax do debate, o cético de merda se vira para o crentelho e diz: "Mas se não há provas da existência de Deus, não é razoável crer nele" (Ora bolas, a ausência de evidência não pode ser jamais a evidência da ausência), ao que o pseudoapologeta responde: "não existem provas porque Deus quer testar a sua fé. Ele quer que você creia nele sem se utilizar da razão" (quer dizer, agora, que a ausência de evidência é a evidência?). Façam-me o favor!

Como você poder enxergar, compreender como a guarnição de suas crenças deve se comportar diante de ataques, desafios e indagações, é importantíssimo. Não porque você se encontrará futuramente em debates televisionados, podendo, a qualquer momento, passar pelo maior dos vexames de sua existência, mas porque a arte de argumentar é exercida no âmago de nossa rotina diária. Quando você vai ao açougue comprar cupim, quando discute com a mulher sobre o próximo filme a assistir, quando conversa com o gerente sobre as marcação das férias pra dezembro, quando seu filho insisti com você sobre o brinquedo da propaganda, em todas estas ocasiões, um bom arsenal de razões bem fundamentadas é imprescindível. Aprenda, portanto, o caminho da crítica textual coerente, da interpretação holística dos fatos e da avaliação profunda das ideias e você se sairá bem em qualquer segmento da vida.

Dando um jeito no "jeitinho"

É matéria-prima do labor de muitos letrados desta nação, a concepção do que é, de fato, o "jeitinho brasileiro". Na verdade, todos já ouviram falar do "jeitinho", seja aqui pelo viés acadêmico, lendo um bom livro como o "O que faz o brasil, Brasil?" de Roberto DaMatta, ou acolá, escutando diariamente, sem se dar conta, as inúmeras alcunhas carinhosas que o "jeitinho" recebeu com o tempo: "Fulano tem o CONTATO"; "Beltrano arrumou um PEIXE"; "Vou lhe passar a SENHA"; "Eu conheço o CANAL". E ainda: "Não tem nada a ver, o sistema é injusto mesmo!"; "Quem não é visto, não é lembrado!"; "Ah! se todo mundo faz, não sou eu quem vai mudar o mundo." Falo, portanto, não dá resiliência brasileira em resolver seus problemas com gambiarras e técnicas não convencionais, mas do sentido pejorativo do "jeitinho", aquele que faz de seus manuseadores sujeitos potencialmente corruptos.

É isto mesmo. Infelizmente, a apolitização e o óbito gradativo de conceitos relevantes para a consciência cidadã que permeou o Brasil no processo de formação de sua identidade política, permitiu que o senso ético elementar se prostituísse com a noção equivocadíssima de que o indivíduo só pode fazer ou deixar de realizar algo, se a lei lhe permitir ou lhe proibir. Esta acepção vingou e agora nutre o inconsciente coletivo brasileiro com comportamentos pra lá de antiéticos. E foi ao identificar este distúrbio histórico, que nossos governos passados concluíram que para inibir a sua perpetuação, eles precisariam criar uma legislação que agasalhasse todos os fatos sociais possíveis, a fim de não deixar nenhuma brecha. Acabaram apagando fogo com gasolina.

Veja: nossa Carta Magna possui 250 artigos e 84 emendas, enquanto a Constituição dos EUA possui 7 artigos e 27 emendas, mesmo tendo sido promulgada 101 anos antes da nossa. E por que esta discrepância? Ora, porque em países de origem anglo-saxônica, a cosmovisão jurídica é a Common Law, que, com o pressuposto da maturidade cidadã, conduz as sentenças mediante a jurisprudência, os usos e costumes, a razoabilidade cultural, enfim, a sensatez é mais preponderantemente relevante que a própria lei. Isto enaltece o senso de responsabilidade cívica, inclina os vastos padrões morais para a supremacia do direito público em detrimento do privado e desafia os indivíduos a se tornarem cada vez mais lúcidos diante dos complexos conceitos de "CERTO" e "ERRADO".

Já no nosso Brasil, a conversa é outra. O regime que adotamos é o Civil Law, que, como supracitado, procurar abranger todos os fatos sociais conhecidos e regulá-los mediante cláusulas e artigos expressamente absolutos. Acontece que, embora pareça mais eficiente, este sistema é o mais absurdo entre ambos, visto que, como não é possível lograr êxito na tarefa que ele mesmo propõe, o efeito de tentar legislar sobre tudo acaba tornando-se uma anuência para que as realidades ainda não abordadas fiquem a mercê da conveniência particular, o que, com o tempo, faz com que todos percebam uma falsa normalidade em manobrar pelas lacunas inevitáveis que o sistema produziu, adulterando, assim, os juízos razoáveis de valor que haveriam de se desenvolver se tão maldosa tentação não os tivesse tolhido.

Foi através deste conjunto de fatos que o "jeitinho" se ratificou oficialmente, embora não tenha permanecido restrito à esfera legal. Ele se expandiu para as vinhetas mais triviais do cotidiano, manifestando-se em todas as relações humanas, da boca de fumo ao interior da igreja, da barraca da esquina ao atendimento no banco, da fila pra merenda às vagas do estacionamento, do balcão da farmácia à declaração de impostos, enfim, o modo vil dos brasileiros acessarem seus desejos mais inacessíveis - legalmente, a curto prazo e a preço baixo - consiste em deflagrar a ordem, a verdade e a razão das coisas serem como são, ou seja, em ignorar o senso comum, porém, factual, de que "onde termina o seu direito, começa o meu."

 
As pessoas põem cones na ruas para guardarem vagas que não podem ser guardadas, compram antenas ilegítimas para roubarem sinal de TV a cabo (afinal de contas, passarinho solto tem dono?), realizam a tarefa celestial de doar sangue com o único objetivo de faltarem do trabalho, batizam e comercializam a gasolina e outros líquidos com fim último de "render mais", furtam vertiginosa e peremptoriamente as cargas de caminhões que tombam na pista, realizam processos seletivos para ocuparem vagas para as quais já tem pessoas determinadas que as ocuparão, driblam o pagamento de tributos com maquiagem empresarial e um pouquinho da "boa contabilidade", falavam e encerravam (não porque mudaram, mas porque as operadoras aprenderam o golpe) a ligação antes de 3 segundos para não gastarem o crédito disponível.

Mas como dar um jeito neste "jeitinho"? Nesta catástrofe cultural que nos envolveu por inteiro? Bem, os remédios para tal desastre são escassos e seus efeitos são transgeracionais. Todavia, tudo começa, progride e termina com a educação. Primeiro, é necessário mostrar à população que a corrupção que ela atribui exclusivamente aos políticos em vigor, reside nela mesma, de modo que não é o sistema político que corrompe os políticos, mas exatamente o contrário. Segundo, o ideal é fazê-la visualizar que, num macro-processo "Toma lá, Dá cá", todos, uma hora ou outra, saem perdendo com as indevidas vantagens auferidas pelos outros. Terceiro, é preciso fortalecer as instituições conservadoras da sociedade para que suas abordagens éticas sejam disseminadas entre a juventude. Quarto, terá que existir campanhas de comoção nacional para que, assim como "jogar lixo no chão" e "parar de fumar" tornaram-se práticas ultrapassadas, o "jeitinho" caminhe na mesma direção. Quinto, não há mágica platônica de mudanças estruturais. Cada um precisa erguer-se, endireitar a espinha e convencer-se: "eu não farei mais isto."

Igualdade não é sinônimo de justiça

Foram 358 anos de escravidão no Brasil, o que produziu condições sociais expressivamente desiguais para os afrodescendentes e raças afins. É como se um indivíduo branco e outro negro estivessem lado a lado para começar uma corrida em busca de seu bem-estar social e econômico, embora a vitória de um não implicasse no fracasso do outro. Então, por algum motivo que nunca se irá saber, o sujeito branco decidi amarrar as pernas do negro, a fim de que ele não parta em direção ao êxito pessoal. O branquelo começa a correr sozinho, aumentando e diminuindo os passos conforme sua capacidade. O afro continua preso na linha de partida por exatamente 358 anos, até que no final deste tempo, uma mulher, branca como leite, percebe a injustiça e o solta daquelas amarras. O negro, assim, começa sua jornada, mesmo tendo perdido seu companheiro branco de vista. Como soltá-lo não seria suficiente para que ele pudesse alcançar o branquelo, então, alguém tem a brilhante ideia de dar ao afrodescendente uma bicicleta (uma cota, um privilégio temporário, um benefício necessário, uma medida desigual), para que ele alcance o outro corredor em um médio espaço de tempo, jogando a bicicleta para o canto quando isto acontecer, a fim de se igualar com aquele que lhe amarrou e correr ao lado dele. Isto é ou deveria ser a política de cotas. Agora me diga: onde está o caráter socialista, antimeritocrático, militante de minoria ou progressista desta medida? Será que você não percebe que o argumento lúgubre de que "se todos são iguais perante a lei, não pode haver cotas", ignora o fato de que durante quase quatro séculos as pessoas não eram iguais perante a lei, e que esta realidade, inevitavelmente, condicionou os padrões socioeconômicos do presente?

Por que sou protestante? - vol. 2

Ser um cristão protestante consiste, sobre todas as coisas, em identificar equívocos inegavelmente absurdos e, dialogavelmente, fixar estacas públicas de discordâncias contra estas anomalias. Quando falamos em protestar, necessariamente, pressupõe-se a existência de uma fonte anterior que, na cosmovisão de quem protesta, produziu incoerências intoleráveis. Portanto, neste caso, o movimento protestante ao qual nos referimos, milita a favor de um conjunto de mudanças na idiossincrasia teológica da instituição cristã denominada Igreja Católica Apostólica Romana. Embora este movimento de inconformidade com os postulados católicos tenha o seu nascimento oficial no ano de 1517, ficando, a partir daí, conhecido como Reforma Protestante, já havia propostas semelhantes de reformulação que datam de períodos bem anteriores ao século XVI. Exemplos? Pedro Valdo, no século XII, rompeu definitivamente com a Igreja Católica, e passou a ensinar que todo fiel era depositário do Espírito Santo, e que cada um podia interpretar livremente as Escrituras, sem a necessidade desta igreja. Na mesma época, Pedro de Bruys, que era um padre instruído e bom orador, começou a ensinar contra o batismo infantil e que era preciso rebatizar os adultos; que só houve uma vez a transubstanciação do pão e do vinho, isto é, na Santa Ceia; que os mortos não se beneficiavam de nossas orações, esmolas e indulgências, e que as igrejas, imagens e cruzes não tinham valor salvífico. Outro caso mais antigo ainda, foi o do monge Ghothescalch, que, no século IX, dizia que Cristo não havia morrido por toda a humanidade (uma espécie medieval de Expiação Limitada calvinista). Enfim, a história está abarrotada de exemplos de indivíduos que discordaram das ideologias do catolicismo. Em síntese, a Reforma Protestante e o protestantismo contemporâneo tem o seu sustentáculo em três arrimos biblicamente consistentes e historicamente eficientes. A consciência deste tripé, de forma sistemática ou não, foi o fator que desencadeou no espírito dos reformadores o faraônico protesto que eles se dispuseram a pleitear. Assim sendo, estes três princípios resumem os motivos que, depois de me tornar cristão, levaram-me a optar coerentemente por ser um cristão protestante. Vejamos um por um:

A igreja não pode monopolizar o sagrado.

A IGREJA, enquanto conjunto não geográfico e atemporal de todos os crentes em Jesus Cristo como formulação de um corpo do qual Ele é o cabeça, pela necessidade do encontro e da comunhão perene, necessita se dividir em grupos geográfica e transitoriamente reconhecíveis. Chamamos estes grupos também de igreja. O grupo ou, melhor, a igreja, seja ela qual for ou qual nome tenha, em hipótese alguma, pode asseverar que o sagrado, isto é, a relação com Deus e o seu Reino, é de exclusivo e privado pertencimento do seu patrimônio. Isto é sectarismo, ou seja, é comportamento e opinião de seitas restauracionistas. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, ratificou um axioma religioso que esteve presente em sua história desde sua concepção nas entranhas do imperador Constantino: "extra Ecclesiam nulla salus", que significa “fora da Igreja [Católica] não há salvação”. Isto tudo me faz lembrar um comentário atribuído a Cipriano: "Ninguém pode ter a Deus por pai, se não tem a Igreja [Católica] por mãe". A história, entretanto, demonstra claramente que, de fato, Deus tem muitos a quem nenhuma igreja tem, assim como as igrejas têm muitos a quem Deus não tem.

A igreja não pode desconsiderar a divergência.

É um macro-princípio da democracia uma afirmação popularmente atribuída a Voltaire, embora não seja localizada em nenhum de seus escritos: "Eu posso não concordar com nada do que você diz, mas lutarei até a morte a fim de que você tenha o direito de dizer". As igrejas cristãs devem se ancorar no mesmo fundamento, ou seja, a liberdade de expressão é o direito fio condutor que rege qualquer progresso de interpretação da realidade. Como as doutrinas, liturgias e práticas teológicas que as igrejas assumem como corretas são produtos da interpretação imperfeita da Bíblia por parte do homem, então, deve-se considerar qualquer leitura discrepante do texto bíblico como plausível de avaliação. O que a Igreja Católica fez durante toda a sua existência, foi oficializar os seus posicionamentos eclesiásticos e teológicos como inerrantes e inexoráveis, desconsiderando, censurando e, não poucas vezes, punindo opiniões divergentes. Veja o que teólogo católico Prof. Felipe Aquino escreveu em seu livro "Para Entender a Inquisição": "Nunca um papa revogou uma verdade de fé ensinada por um anterior, e nunca um dos 21 Concílios universais que a Igreja realizou, cancelou um ensinamento doutrinário de outro realizado antes. O Espírito Santo não se contradiz, e não deixa a Igreja errar no essencial da fé. A história confirma isso." (pag. 16). Será mesmo que a história confirma este suposto fato ou demonstra o inverso dele? O Papa Eugênio IV condenou Joana d’Arc a ser queimada como uma bruxa, e depois o Papa Benedito XV decretou que essa mesma mulher fosse canonizada (1920). No mesmo livro supracitado, há o relato de que "quando em 1231, o Papa Gregório IX oficializou o tribunal do Santo Ofício, proibiu o uso da tortura, como era tradição na Igreja. Mas, 20 a 30 anos mais tarde, o Papa Inocêncio IV julgou legítima a sua aplicação." (pag. 147). Onde está a infalibilidade papal nestas decisões? Se nem a própria Igreja que se considera inerrante e absoluta, desconsiderando, para tanto, pensamentos diferentes de suas crenças, consegue entrar em consenso dentro de si mesma, qual será a sua credibilidade opinativa?

A igreja não pode legislar sobre si mesma.

É fato que a igreja, enquanto manifestação visível da IGREJA-CORPO, necessita, inevitavelmente, da condução Daquele que se autoproclama como seu CABEÇA, seu órgão pensante e decisório, ou seja, o Senhor Jesus Cristo. Esta condução, embora possa se apresentar historicamente por meio de avivamentos, reformas, expansões, dentre outros eventos visivelmente espirituais, não pode ser dirigida através de invencionices da imaginação humana, que destoem do padrão bíblico de doutrinas, organização eclesiástica, liturgia do culto, práticas de proselitismo etc. Não cabe à igreja a liberdade criativa sobre sua própria essência, propósito e comportamento. Todo o direcionamento já está posto e estabelecido nas Sagradas Escrituras. É óbvio, no entanto, que há certas características inéditas que poderão surgir no espaço-tempo de alguma geração, que, sem nenhuma objeção bíblica, poderão ser introjetados na rotina da igreja a título de instrumentação e funcionalidade contextual, como novas tecnologias, arquiteturas diferenciadas, demandas iminentes de outros profissionais, técnicas inovadoras de evangelização e discipulado, sensatez para com horários, lugares e formatos de reuniões, dentre uma pluralidade de outras adaptações. Tudo isto, porém, consiste em formas razoavelmente comuns de qualquer instituição se posicionar em determinadas microssociedades ou nações inteiras. Contudo, o que o catolicismo romano sempre fez foi adicionar ao escopo eclesiástico, símbolos de fé, práticas litúrgicas e dogmas integralmente não bíblicos. Podemos mencionar o terço, o sinal da cruz, a confissão com o padre, a adoração [ou veneração] aos santos, a beatificação, a canonização, a intermediação mariana, a intercessão dos santos, a existência de um representante de Jesus na Terra (o Papa), a diferença entre pecados mortais e veniais, as rezas por repetições, as procissões, a infalibilidade papal, as promessas, as penitências e uma série inumerável de outras invenções.

Por que sou cristão? - Vol. 1

Em uma tríade de artigos intitulados respectivamente de "Por que sou cristão?", "Por que sou protestante?" e "Por que sou presbiteriano?", tentarei delinear os motivos mais preponderantes que me fazem possuir a fé que tenho na existência do Deus judaico-cristão, na necessidade da Reforma Protestante e na "acertividade" teológica da Igreja Presbiteriana do Brasil.

POIS BEM, SEM MAIS DELONGAS, VAMOS AO QUE SE ESPERA:

A princípio, é indispensável ratificar que eu creio que o motivo de eu ser cristão ancora-se em uma fé pessoal e intransferível concedida a mim via um condutor espiritual chamado Espírito Santo. Neste sentido, a fé me prova a existência da divindade judaico-cristã, porém, pelo fato da fé ser um tipo singular de evidência, ou seja, por ela provar somente para quem a detém, então, não posso tecer justificativas transcendentais para demonstrar a viabilidade racional da minha fé. Isto seria uma imbecilidade sem tamanho.

Visto isso, preciso identificar os fatores racionalmente plausíveis e os elementos cientificamente mensuráveis que estão anexos à centralidade espiritual da minha crença, a fim de que eu possa minimamente apresentar um conjunto de razões epistemologicamente confiáveis que ratifiquem a coerência de se acreditar naquilo em que acredito. Então, para fins de comprovação, guiarei este artigo por meio das repostas às duas perguntas objetivas seguintes:

POR QUE DEVO ACREDITAR QUE EXISTE UM CRIADOR CONSCIENTE E INTELIGENTE?


1 - Porque se um criador com estas características não existisse, o universo e a vida teriam que, inevitavelmente, ter surgido da obra explosiva e acidental do acaso, o que, paradoxalmente, não poderia produzir dois fatores que foram produzidos: construção de estruturas e organização da construção. Podemos exemplificar esta consideração na seguinte hipótese: a explosão de uma sala com páginas soltas e dispersas em todo o seu espaço não poderia jamais produzir a impressão de um livro qualquer e, nem muito menos, gerar a ordem exata de sua palavras como em um dicionário.

2 - O contrário desta impossibilidade chama-se design inteligente. É só olhar para a estrutura construída e observar cientificamente sua funcionalidade exata: o planeta Terra tem uma inclinação de 23,5 graus, o que é ideal para haver regulação do calor. Se a inclinação fosse aumentada pra 45 graus, os verões seriam quentes demais e os invernos frios demais. Se a inclinação fosse diminuída, pra 0 graus, o equador seria quente demais, e os polos - norte e sul - seriam frios demais; se o tempo de rotação deste planeta fosse diminuído em 01 décimo, os dias e as noites seriam 10 vezes mais longos, o que inviabilizaria progressivamente a manutenção da vida sob a luz solar e o frio da noite; a atmosfera terrestre tem uma espessura de 480km, o que é ideal para impedir que a chuva diária de meteoritos penetre em suas camadas superiores e chegue à nossa troposfera. Calcula-se que há cerca de 2 milhões de variáveis diretas e indiretas que permitem a existência da vida na Terra.

3 - Além de tudo isto, a existência de um criador está substancialmente de acordo com um postulado científico universalmente aceito. Se considerarmos a Lei da Biogênese de Pasteur, que diz que a vida só pode ser gerada a partir de outro organismo vivo, o conceito evolucionista de que a matéria inanimada e inorgânica produziu vida e seres vivos complexos é desmontada categoricamente, ao passo que a teoria criacionista de que um Deus vivo pariu todas as formas de vida existentes se encaixa perfeitamente nesta lei. Enquanto a Lei da Biogênese estiver em vigor científico, não há outra possibilidade para a causa da bioexistência.

4 - Por que se eu não acreditar que existe um criador consciente e inteligente, eu, inevitavelmente, só poderei acreditar que a razão da minha existência é o produto de uma casualidade, o que, consequentemente, deve me levar a concluir que a minha crença é um subproduto do acaso, o que, coerentemente, precisa me convencer de que não é razoavelmente inteligente acreditar que pensamentos desta natureza, isto é, subprodutos acidentais, possam ser verdadeiros no que tange ao primeiro acidente. Seria como esperar que a forma acidental tomada pelo leite esparramado pelo chão, quando você deixa cair a jarra, pudesse explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.

POR QUE PRECISO CRER QUE ESTE CRIADOR É, NECESSARIAMENTE, O DEUS JUDAICO-CRISTÃO REVELADO NA BÍBLIA?

1 - Se a Bíblia, de fato, revela a existência de um criador ou, melhor, se este criador, que se autoproclama como Deus, se revelou por meio da Bíblia, então, esta fonte autobiográfica, necessariamente, precisa apresentar em seu conteúdo dados fidedignos no que concerne à obra deste criador. Falo do universo e da natureza. Se houver uma única informação científica inverídica sequer na Bíblia, isto pode ser o suficiente para desacreditá-la por completo. Faço o desafio:

- O cálculo mais preciso a respeito do tamanho do Sol concluiu que o nosso "astro rei" tem 696.342 quilômetros de raio – com margem de erro de 65 km, ao passo que a Lua, nosso satélite natural, tem um diâmetro de aproximadamente 3.476 km. Portanto, o Sol é consideravelmente maior que a Lua. E é exatamente isto que a Bíblia afirma:

"Fez Deus os dois grande luzeiros: o MAIOR para governar o dia, e o MENOR para governar a noite; e fez também as estrelas." (Gênesis 1:16)

- Até 1687, quando Isaac Newton descobriu "a lei da gravitação universal" e provou que a terra flutua no universo, as pessoas não acreditavam neste fato com tanta veemência. O interessante é que esta descoberta já estava patenteada na Bíblia:

"Ele estende o norte sobre o vazio e faz pairar a terra sobre o nada."  (Jó 26:7)

- Até o final do século XIX, não se sabia, com certeza, se havia um núcleo denso no centro da Terra e, se havia, do que ele era formado. Então, em 1905, o Geofísico Andrij Mohorovicié (1857-1936) descobriu o manto por meio de ondas sísmicas; o Geofísico Beno Gutenberg (1889-1960) descobriu o núcleo externo na terra em 1930; e, finalmente, em 1936, a Geofísica Inge Lehmann (1888-1993) descobriu o núcleo interno da terra, formado por magma. Engraçado! A Bíblia já havia nos alertado sobre isto:

"Da terra procede o pão, mas embaixo é revolvida como por fogo." (Jó 28:5)

 - Antes mesmo do navegador Fernão de Magalhães comprovar a teoria de Nicolau Copérnico em paralelo com Galileu Galilei, que asseverava que a Terra é redonda, a Bíblia repetiu a veracidade deste fato por três vezes, embora alguns filósofos gregos tenham levantado hipóteses nesta mesma direção:


"Traçou um círculo à superfície das águas, até os confins da luz e das trevas." (Jó 26:10)

"Então, elas, segundo o rumo que ele dá, se espalham para uma e outra direção, para fazerem tudo o que lhes ordena sobre a redondeza da terra." (Jó 37:12)

"Ele é o que está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar" (Isaías 40:22)

- Parece muito estranho dizer que as fases da Lua influenciam no comportamento das marés, das ondas marítimas. No entanto, ao lado da Astronomia, a Bíblia aponta este mesmo fato:

"Assim diz o SENHOR, que dá o sol para a luz do dia e as leis fixas à lua e às estrelas para a luz da noite, que agita o mar e faz bramir as suas ondas; SENHOR dos Exércitos é o seu nome." (Jeremias 31:35)

Será razoável acreditar que todas estas asseverações foram produzidas a partir de uma observação primitiva ou que representam um conjunto de golpes de sorte perfeitamente certeiros? É óbvio que não. Este conjunto de informações só pode ser fruto de revelação por parte do criador, assim como só um relojoeiro pode apresentar os detalhes de seus relógios de forma tão "acertiva". E isto não é tudo. Portanto, convido você a ir além e continuar perscrutando a ciência contida na Bíblia a fim de experimentá-la mediante crivos científicos universalmente aceitos.

2 - Iniciado formalmente em 1990, O Projeto Genoma Humano foi coordenado por 13 anos pelo Departamento de Energia do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. O projeto originalmente foi planejado para ser completado em 15 anos, mas o desenvolvimento da tecnologia acelerou seu final para 2003. As principais metas do Projeto Genoma Humano foram: identificar todos os genes humanos; determinar a sequência dos cerca de 3,2 bilhões de pares de bases que compõem o genoma do Homo sapiens; armazenar a informação em bancos de dados. Você sabe qual foi a última e mais importante conclusão do PGH? Leia você mesmo:

“O verdadeiro Adão viveu na África, cientistas sustentam que toda a humanidade descende de um ancestral comum.”  
(Jornal O Globo, de 25 de dezembro de 2002, Coluna: Ciência e Vida)

Dispenso comentários.


3 - Considerando que o episódio da "Ressurreição de Jesus" é a centelha primordial que dá vazão à formulação do cristianismo, vou indicar aspectos historicamente relevantes em seu contexto, a fim de que a realidade deste evento seja exposta por meio de parâmetros lógicos. O que vou demonstrar, portanto, prova que, em hipótese alguma, houve um complô para arranjar e forjar a possível ressurreição de Cristo:

- Em primeiro lugar, o fato da narração do episódio da ressurreição se dá em quatro fontes diferentes (Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João), permitiu que houvesse pequenas discrepâncias entre uma fonte e outra, como a quantidade de mulheres e anjos presentes no episódio. Assim, se os discípulos quisessem montar uma história irreal de ressurreição, eles entrariam em acordo para jamais deixar que estas contradições existissem, ou seja, elas só existem porque, ao observar um fato qualquer, é natural que haja o fator "ponto de vista", que diferencia um testemunho do outro (Mateus 28:1-10; Marcos 16:1-8; Lucas 24:1-12; João 20:1-10).

- Além disto, os quatro evangelistas afirmam que as primeiras pessoas que testemunharam a Ressurreição de Jesus foram mulheres. Entretanto, até o primeiro século, as mulheres não tinham um depoimento válido perante um tribunal, isto é, não tinham qualquer credibilidade para serem testemunhas. Novamente, se os 11 discípulos desejassem produzir um falso acontecimento a fim de aliciar mais fiéis, eles nunca escreveriam que foram mulheres as testemunhas que presenciaram os primeiros momentos da ressurreição.

- Em terceiro lugar, que Jesus morreu crucificado, até os mais acirrados céticos e críticos da literatura bíblica são categóricos em concordar. Então, dizem estes teóricos, que os discípulos de Cristo, para apagarem a vergonha da cruz para o cristianismo, tentaram reverter o quadro, tecendo o episódio da ressurreição. Ora, isto seria uma estupidez dantesca, pois nenhuma nação ou cosmovisão religiosa daquele tempo, aceitava a ressurreição como uma possibilidade. Em vez disto, os discípulos, com certeza, escolheriam a metempsicose ou teoria da transmigração da alma, acolhendo os egípcios, gregos, romanos, pitagóricos etc, ou a imortalidade da alma, ganhando os platônicos, ou ainda mesmo a reencarnação, convencendo a civilização persa, dentre outras. A ressurreição era um doutrina rejeitada por todos os filósofos e teólogos de todas as culturas do primeiro século.

- Os médicos judeus eram recorrentes em acreditar que um corpo inconsciente, embora pudesse estar morto, poderia também estar em coma reversível até no máximo três dias. Se os discípulos de Jesus quisessem pleitear sua ressurreição de forma criminosa, eles não colocariam o intervalo entre a morte e a ressurreição de Jesus em um prazo compreendido de três dias, mas no mínimo de cinco dias.

4 - Jesus possui uma influência singular em todas as cosmovisões religiosas de grande porte posteriores a ele. Aparentemente, nenhuma religião depois do primeiro século conseguiu consolidar suas doutrinas sem se deixar levar pelas bandeiras ímpares que Jesus Cristo levantou. O Espiritismo de Allan Kardec tem Jesus em seu "Livro dos Espíritos"; O Livro de Mórmon conseguiu criar outro evangelho, porém, sem se desvincular da pessoa de Cristo; O Alcorão registra que Jesus foi o penúltimo profeta enviado por Deus ao mundo, ou seja, o último antes de Maomé. O budismo e o hinduísmo, por serem anteriores à Cristo, não o mencionam em seus escritos, embora o tratem como mestre indispensável à história. E falando em história, é o nascimento de Jesus (um homem qualquer?) que a divide. É a cruz que está pregada em tribunais de justiça mesmo em países laicos como o nosso; é sobre a Bíblia que juram as testemunhas dos crimes julgados. Tudo isto me parece o cumprimento progressivo de uma profecia que o próprio Jesus proferiu a respeito de si mesmo:

"E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer." (João 12:32,33)

Batismo Infantil - Uma cicatriz no rosto de Calvino

Não houve como escapar. Lutei e fugi, mas, de um jeito ou de outro, eu sempre soube que este momento chegaria. Falo da ingrata oportunidade de escrever sobre este assunto. Digo "ingrata" porque sempre sofro retaliações sutis do círculo do qual faço parte (o presbiterianismo), quando publico opiniões divergentes de suas crenças ou práticas. Todavia, diferentemente da atitude dos judeus, narrada em João 12:42-43, não temo sofrer sanções de afastamento ou mesmo expulsões psíquicas daqueles que se assentam na mesa comigo para repartir o pão. É que eu amo exclusivamente a glória de Deus e dela não me apartarei por pragmatismo.

Pois bem, então! Vamos ao desenrolar do carretel. Em primeiro lugar, o título deste artigo tem sua conotação no fato de que sendo eu presbiteriano - e por assim dizer um "calvinista" - acredito que o conjunto de interpretações bíblicas de João Calvino, isto é, as doutrinas que ele assumiu como tais, são, em sua maioria, as corretas e convenientes constatações daquilo que é realidade nas Escrituras. Todavia, a meu ver, esta "acertividade" calvinista não implica na perfeita e plena conjunção doutrinária, ou seja, a doutrina da Depravação Total acolhida por ele não o isentou de ser totalmente depravado para errar.

Visto isso, considero o ato de batizar crianças como uma das poucas, embora existentes, opiniões teológicas equivocadas que o francês abraçou. Vejamos o porquê: o batismo infantil é justificado pelos teólogos reformados como o sinal neotestamentário (do Novo Testamento) que substitui, em forma de aplicação, o sinal veterotestamentário (do Velho Testamento) da circuncisão. É que, segundo eles, o Pacto da Graça selado com Abraão em Gênesis 17:9-14, se perpetuou mesmo após o advento da Nova Aliança. E se a circuncisão foi abolida em Cristo, logo deverá haver outro símbolo que cumpra este papel, concluí eles.

Eu concordo. Se nós somos descendentes de Abraão (Gl 3:6-14) e se a promessa divina se estenderia até os seus descendentes (Gn 17:1-8), então, estamos sim sob este Pacto. Mas pra que servia a circuncisão? Ora, para sinalizar, visível e externamente, que o sujeito circuncidado fazia superficialmente parte do Povo de Deus. Para tanto, o ato de circuncidar não tinha nenhuma ligação com a salvação. Estando circuncidado, um indivíduo poderia ser um israelense (pertencente ao povo hebreu), sem, contudo, ser um israelita, ou seja, alguém cujo coração fora transformado. O mesmo acontece com o batismo e com os batizados.

Por conseguinte, a Santa Ceia, no mesmo rumo desta constatação, é classificada como o ato simbólico que substitui a Páscoa. Para os calvinistas, o batismo e a ceia tornaram-se, portanto, os sacramentos que devem ser ministrados como meios de graça no seio da Igreja. Bem, apesar de não discordar veementemente que ambos os sinais supracitados são, de fato, substitutos daqueles dois ritos que, em Cristo, foram aniquilados, embora não haja nenhuma afirmação bíblica categórica a respeito desta substituição, não acredito que a transformação destes elementos se aplique somente à sua forma, mas, sobretudo, creio que ela tem relação direta com aqueles que receberão o sacramento.

Vou explicar: se o batismo substituísse a circuncisão exclusivamente em seu formato de sinalização, apenas os meninos de oito dias poderiam ser batizados, concorda? Pois somente eles eram circuncidados (Gn 17:12). Mas e as mulheres? Pior: e as mulheres adultas claramente batizadas no Novo Testamento? Se você indagar um bom pastor presbiteriano sobre este aparente contrassenso, ele, automaticamente, o responderá que houve uma ampliação do Pacto da Graça quando a Nova Aliança entrou vigor, de modo que aqueles que não recebiam o sinal, passaram, naturalmente, a recebê-lo (em qualquer época). No entanto, se é assim, por que a troca Páscoa/Ceia tomou o caminho inverso?

É que, no Antigo Testamento, todos os hebreus participavam da Páscoa: homens, mulheres, adultos e crianças (Ex 12:1-28); já no Novo, só discípulos professos e em comunhão com Deus "podem" cear (Mt 26:26-30; 1 Co 11:17-34). Você consegue enxergar o tamanho dantesco desta incoerência? Percebe que este argumento da "ampliação do Pacto" não tem aplicabilidade lógica? O que quero dizer é que este sistema reformado de substituição sacramental  é coerente e eu o admito, porém, é óbvio demais que o fato de que meninos eram circuncidados no Antigo Testamento não pode, coerentemente, justificar o ato de se batizar meninos e meninas no Novo.

Quando falamos em crianças e adultos, não estamos nos referindo à idade, mas à maturidade pessoal e subjetiva de cada um. Acredito que, na Nova Dispensação, Deus decidiu conectar a sinalização do Pacto da Graça à consciência (1Pe 3:21), de modo que o desejo pelo símbolo de participar do povo de Deus se manifeste espontaneamente e que antes do ato de ser marcado por este sinal, o indivíduo faça uma confissão pública da fé admitida em seu coração (At 8:36-38). Por todo o Novo Testamento, você só lerá relatos de batismos realizados com estas perspectivas.

Outra inconsistência presente no Batismo Infantil é com respeito à sua constatação hermenêutica. Se considerarmos algumas regras reformadas de interpretação bíblica, identificaremos grandes disparates entre o que dizem os presbiterianos sobre como se deve interpretar as Escrituras e como, de fato,  eles a interpretam:

1 - Os teólogos presbiterianos dizem que "os exemplos bíblicos só têm peso de autoridade quando são amparados por um mandamento". Entrementes, no caso do batismo infantil, não há mandamento algum ou qualquer tipo de exemplo, mesmo sem ordenança, que minimamente o pudesse ratificar. Até sobre um suposto e estranho "batismo pelos mortos" praticado pelos coríntios, há menção paulina (1Co 15:29), mas sobre o batismo de crianças, não existi nem meio versículo.

2 - Dizem também que "a história da Igreja é importante, mas que não é decisiva na interpretação da Escritura." Contudo, por não encontrarem um único versículo qualquer para descarregarem sua consciência, buscam relatos de historiadores dos primeiros séculos para darem razão à sua prática, como se isto fosse o suficiente para pleitear a instituição de uma doutrina na Igreja. É o mesmo que fazem os Adventistas do Sétimo Dia, quando querem através de relatos históricos seculares, evidenciar que a Igreja Primitiva guardava o sábado. É o mesmo argumento, ora! A pergunta é: por que os presbiterianos não guardam o sábado se existem literaturas que indicam sua guarda pelos primeiros cristãos?

3 - Afirmam também que "A Bíblia explica a própria Bíblia", isto é, que não devemos acrescentar, nem subtrair nada das Escrituras, de modo que quando ela fala, nós falamos, e que quando se cala, nos calamos. Entretanto, os pastores da IPB se apropriam de textos onde houve batismos coletivos para indicar que ali havia crianças e que foram batizadas. Contudo, se investigarmos os textos, veremos a altura do equívoco: em Atos 16:14,15 não são mencionadas crianças, por isto eu também não posso menciona-las; em Atos 16:32-34, Lucas cita a pregação e conversão de todos os da casa do carcereiro, o que, provavelmente, já exclui a existência de crianças, pois estas não podem professar a fé; em Atos 18:8, só foi batizado quem pode professar a fé; e em 1 Co 1:16, também não há registro algum sobre crianças batizadas.

4 - Asseveram "que de livros históricos não se pode extrair ou formular doutrinas, pois estes tem, em sua maioria, textos narrativos e não decretivos." Sendo assim, mesmo se o Livro de Atos mencionasse claramente um batismo infantil recorrente na Igreja Primitiva, não seria possível concluir, por meio de somente citações deste livro histórico, que o desejo de Deus era que crianças fossem batizadas no Novo Testamento.

Solução?

A solução não é muito complexa. Como eu disse, eu acredito que o batismo é sim a substituição da circuncisão. Mas disse também que esta substituição não se resume à mudança do rito, porém, sobretudo, a quem ele vai ser aplicado. E como, então, eu resolvo esta equação? Ora, é simples! Se você perguntar a um teólogo presbiteriano como as mulheres entravam, visível e externamente, no Pacto da Graça na esfera do Antigo Testamento, já que elas não eram circuncidadas, ele lhe responderá, por inferência lógica, que elas entravam através de um homem (quando solteira, pelo pai; quando casada, pelo marido). Isto não é bíblico, mas é a única opção inteligente. E eu concordo. Visto isso, assim como as mulheres, no contexto veterotestamentário, entravam no Pacto, por meio de uma figura masculina, sem qualquer simbolização, agora, no Novo testamento, os filhos entrarão também no Pacto sem um sinal, mas por meio dos pais, que receberam o sinal (o batismo). Coerente, não? O argumento reformado deveria se estender até o Novo Testamento. No entanto, você ainda poderia me perguntar: Marlon, mas e se só um dos pais for crente e, portanto, só ele tiver sido batizado? Como resolvemos? Simples também. É só lermos 1 Coríntios 7:14: "Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. De outro modo, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos." A única razão pela qual Paulo afirma que o cônjuge incrédulo é, de alguma forma, "santificado" no convívio do cônjuge crente, é para que os filhos não fiquem sem ser santos, ou seja, para que não fiquem fora do Pacto, embora não recebam seu sinal.

Eu, evangélico?

É recente. Fui batizado em 2008 na Igreja Presbiteriana do Brasil. Não faz nem uma década. Mas de lá pra cá, começou em mim um processo de lucidez existencial - e por que não espiritual? - que jamais havia experimentado antes. Então, passei a estudar a propedêutica da teologia, inteirar-me de literaturas multi-teológicas, frequentar círculos divergentes dos arraiais reformados, debater assuntos parcialmente inquestionáveis e tecer a gênese do meu amor por escrever sobre tudo a partir de uma perspectiva cristã. Isto abre a mente. Dá asas ao espírito. Amadurece a idiossincrasia pessoal e a cosmovisão de reino.

Foi, então, que percebi, com a surpresa de uma criança honesta na fé, que há algo muito errado com o universo evangélico brasileiro. A realidade é que a maior parte do que é produzido ou introduzido aqui, com um caráter religioso cristão, manifesta-se com uma roupagem colorida por dois elementos amplamente negativos: a mistificação do trivial e a ressurreição do que já está consumado. Já escrevi sobre isto em outros textos como "O catolicismo histórico, o valdemirismo brasileiro e a Síndrome de Tomé", "Os brincos da Coruja" e "Dossiê da história cristã". Todavia, gostaria que você me desse mais uma oportunidade de reavaliar estes fatos.

Parece que, quando as coisas começam a tomar rumo, sempre surgem cardos e abrolhos pra desfazerem o progresso iniciado. Tivemos o mover do G12, da visão celular, da descoberta do Benny Hinn, da ascensão de Edir Macedo (o mentor de "Erre Erre" Soares e Valdemiro Santiago), todos inspirados por Kenneth Hagin, T. L. Osborne & Cia. O neopentecostalismo, cujo fio condutor é a Teologia da Prosperidade e Cura, se dilatou e com ele um conceito equivocadíssimo de avivamento se espalhou pelos salãozinhos evangélicos. "'Salãozinhos' não! Mais respeito! Construímos a Cidade MUNDIAL e o terceiro Templo de Salomão na cidade de São Paulo." Coitado de São Paulo. Deve estar aos berros lá em cima.

Mas voltemos aos dois elementos supracitados. O primeiro é o que guia os cultos, as reuniões, a formação da liderança, o poder concedido a ela, a hierarquia eclesiástica, os sermões, as liturgias e as músicas do movimento evangélico brasileiro. Quando o G12 começou na Colômbia em 1983, ele não tinha todas as conotações que os evangélicos [leia-se: neopentecostais] lhe atribuíram aqui no Brasil: batalha espiritual, quebra de maldições, atos proféticos, cura interior, regressão, hipnose, fogueira santa etc. Todos estes ingredientes foram incrementados pelos bruxos cristãos de nossa geração. Não lhes basta o trivial, o comum, a singeleza da simplicidade. É necessário mistificar o padrão para lhe dar ares de espiritualidade.

Lembra-se da unção do leão de Ana Paula Valadão? Do copo de água em cima da televisão pela I.U.R.D? Dos lenços "Sê tu uma Bênção" do Valdemiro? Já ouviu falar em correntes, novos apóstolos, maldições hereditárias? Das loucuras do "Bispo" Átila Brandão que chama o arcanjo Gabriel de Gabi? Das maluquices da Igreja Quadrangular Brasil afora? Lembro-me que, aqui perto de casa, a igreja que citei por último proibiu os membros de tomar Coca-Cola; depois, desproibiram de tomar o refrigerante e baixaram um novo regulamento que definia a roupa com a qual os fiéis deveriam ir aos cultos: pano de saco. E é neste desequilíbrio que o cenário vai se descortinando.

Mas ainda não acabou. O outro elemento do qual falamos é a ressurreição do que faleceu em Cristo. Além de mistificar o simplório, eles querem vivificar a cultura judaica, suas tradições, a lei mosaica, Israel etc. Querem se vestir como os hebreus, trazer a água do rio Jordão ou serem batizados lá, engarrafar torrões de terra da Terra "Santa". Exatamente como o João Alexandre melodificou: "Reconstruindo o que Jesus derrubou. Recosturando o véu que a cruz já rasgou. Ressuscitando a lei, pisando na graça, negociando com Deus! No SHOW DA FÉ, milagre é tão natural, que até pregar com a mesma voz é normal. Nesse Evangeliquês UNIVERSAL, se apossando dos céus. Estão DISTANTE DO TRONO, caçadores de Deus ao som de um Shofar. E mais um ídolo importado dita as regras pra nos escravizar. É proibido pensar!"

E não é isto que o MACEDOzedeque acabou de fazer na terra da garoa? Dando vida ao que o Cristo assassinou quando foi assassinado na cruz? Como disse Paulo, não me envergonho do Evangelho, porém, tenho uma imensurável aflição e constrangimento quando sou confundido com um evangélico. É que o Evangelho e os evangélicos não se misturam, pelo menos ainda não. E se lá no panteão de apostasias deles, é proibido pensar, eu jamais quero estar incluído neste rótulo. Portanto, não me insulte. Não profane o meu nome. Não me detenha na roda destes escarnecedores. E, sobretudo, não me conte entre eles quando o censo passar.