Por que não assisto mais à TV aberta?

A princípio, julgo ser amplamente necessário divulgar explicitamente o fio condutor de minha opinião: não sou contra a televisão aberta, popular, grátis por assim dizer. Aliás, como eu poderia me posicionar contra, diante do uso louvável - mesmo que raro - que se faz dela? Seria o mesmo que discordar do ato de uma dona de casa se utilizar da faca para partir seus legumes, levando em conta o fato de que há assassinos que se apoderam do mesmo instrumento para matar. Portanto, meu problema não é com o objeto, mas é com sua manipulação. Minha inquietação se manifesta na medida em que o manejo deste meio, a televisão aberta, torna-se uma verdadeira incubadora de desinteligência.

Por que não assisto mais à tevê aberta? Bem, eu posso não apenas lhe responder, mas posso [e prefiro] lhe mostrar. Para fazer isto, precisarei de sua colaboração. Caso você deseje aceitar, comece sintonizando sua televisão em um canal popular da TV aberta, seja num sábado qualquer ou numa trade de domingo. O ideal é que você faça isto quando estiver no ar algum programa de auditório, com um apresentador simpático, dinâmico e engraçado. Posso lembrá-lo de alguns: Programa do Faustão, Caldeirão do Hulk, Legendários, Pânico na TV, Programa Sílvio Santos, Programa Eliana, Domingo Legal, O melhor do Brasil, dentre outros.

Agora, procure elementos comuns entres todos estes programas e você se surpreenderá com o resultado: eles dispõem dos mesmos artifícios para fidelizar sua atenção e a de sua família, sem que vocês percebam que estão se divertindo com entretenimento barato num cativeiro de opções idênticas. Talvez você ainda não havia observado, mas este fenômeno é exatamente o descrito pelo rapper Gabriel O Pensador em sua música "Até Quando?": "A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você."

Mulheres seminuas ou semi-vestidas [como você preferir], que banalizam a sensualidade feminina, ou seja, que a extrai da intimidade matrimonial e a negocia com o público, e em público; jogos QUIS de perguntas e respostas que desafiam os participantes com acertos que vale dinheiro e erros que levam uma torta à "cara"; reportagens com reforma de carros velhos, acabamento de imóveis, encontros de familiares distantes e viagens de volta às terras de pessoas humildes [leia-se: nordestinas], como se a responsabilidade socioeconômica assumida por estas emissoras milionárias fosse satisfeita somente com gotículas de assistência social.

Isto tudo, sem falar no sensacionalismo vulgar com as notícias de celebridades, os aplausos ao cantor convidado que teceu a complexa e erudita trilha sonora do momento e os quadros fúteis de paqueras superficiais que nada deveriam gerar, além da seguinte autoindagação: por que eu estou consumindo isto? Exatamente! Você e quem quer que seja, quando se assenta no sofá e aperta o botão ligar/desligar do seu aparelho televisor para se distrair com a programação da TV, está abrindo, concomitantemente, as janelas do consumo. Não digo "consumo" no sentido de comprar, mas com o significado de "se alimentar", de "se nutrir". E do que você pode estar se alimentando na TV aberta brasileira? Ora, de dejetos e refugo!

Não há humor, há bizarrices; não há informação, há seleção de notícias que produzirão audiência; não há dramaturgia que explore cultura ou que gere reflexões sociais, há enredos miseráveis que só desbravam a sexualidade (hétero ou homossexual), a traição (familiar ou profissional) e uma certa dose altíssima de ganância por poder e dinheiro, que, com uma vista grossa adequada, qualquer pai pode deixar sua filha assistir a este tipo de novela; não há esportes, há monopolização do futebol. Percebe agora como o conteúdo é selecionado para manter você ludibriado o bastante para não enxergar que não há conteúdo algum? Você compreende que as aparentes escolhas que o controle remoto supostamente lhe proporciona, funcionam como aquele velho ditado sobre o homem: "só mudam de endereço"?

Mas qual seria a solução, então? Assinar uma TV a cabo? Deixar de assistir à televisão se isto não for possível? Bem, a melhor alternativa é assinar sim uma TV paga, que, com um acervo vasto de verdadeiras opções, o problema poderá ser minimamente resolvido. Todavia, se este luxo não estiver ao alcance de quem o almeja, existe ainda a possibilidade de redigir uma seleção - mesmo que curta - não de canais, mas de programas razoavelmente assistíveis da TV aberta para o lazer residencial, o que necessitará, obviamente, de um crivo maduro, lúcido e ideológico para que haja êxito nesta tarefa. Menciono alguns programas: CQC, A Liga, Conexão Repórter, Profissão Repórter, The Noite, Agora é Tarde, Fantástico, De frente com Gabi etc.

Visto isso, creio ser preciso lembrar que a programação do final de semana da TV brasileira só foi um estereótipo do qual me apropriei, a fim de demonstrar a miserabilidade de um conjunto que se manifesta durante toda a semana. Contudo, não dá pra citar todos os canais que gostaria, muito menos seus itinerários de entretenimento. Este artigo é só um breve esboço de minha indignação. Está na hora de sair do sofá, mudar de canal ou lutar por uma legislação a respeito. De fato, não é tão utópico dar fim ao problema, ao passo que somos nós que possuímos, literalmente, o controle nas mãos para fazê-lo, pois se existe uma coisa na produção televisiva que é bastante clara, é que, quando um programa de TV não dá ibope, ele desaparece.

TEODICEIA - A ambivalente coexistência entre o bem e o mal

O bom e velho deus de barba branca, cajado na mão e ares de passividade, é a caricatura mais popular do Deus judaico-cristão entre as literaturas infantis das escolas dominicais. E é justamente a partir desta imagem distorcida que as pessoas se confundem ao confirmar o senso comum de que Deus é amor, sem, contudo, ser um Deus que aplica a justiça, que proporciona o reconhecimento de sua glória e que corrige aqueles a quem ama. Assim sendo, faz-se necessária uma elucidação a respeito deste equívoco contaminante, o qual não se construiu por meio de considerações bíblicas.

A TEODICEIA, enquanto ramificação acadêmica da teologia, designa o fato de que um aparente contrassenso existe no universo, ou seja, de que é estranho que uma divindade verdadeiramente do bem possa permitir o mal e conviver com ele. Sinto em dizer para os teóricos desta matéria que não há incoerência nenhuma, mas somente uma discrepância de nomenclatura. Deus não deu corda no planeta Terra e o deixou a mercê de uma possível autodestruição. Ele intervém o tempo todo no cosmos. A esta intervenção, frequentemente, damos o nome de "mal", enquanto Ele a nomeou de "justiça", "reconhecimento" e "correção".

Mesmo assim, para nossa rastaquera compreensão, Deus afirmou ser o executor desta maldade (Is 45:7; Lm 3:38). Porém, Deus não é passivo, mas sim pacífico. Há uma membrana tênue que distingue os dois adjetivos. Enquanto o primeiro refere-se à omissão, à frouxidão e à displicência, o segundo tem a ver com o objetivo de manter a paz, embora tal desejo não elimine a promoção do julgamento e da penalidade para aqueles que perturbarem a ordem vigente. Neste sentido, o pecado tanto individual como coletivo, são distúrbios diante dos quais Deus não se permiti ficar indiferente.


Isto mesmo! A maioria dos males que ocorrem às nossas vistas são frutos da justiça divina para com o pecado dos homens. E não importa se são direta ou indiretamente provocados por Deus, ou se Ele os permitiu ou os decretou, pois "O que um Deus onipotente prevê e permite, ele quer e ordena." (Terry Johnson). Basta-nos reconhecer que estes males se revelam basicamente em três formas distintas, a saber: os acidentes (naturais ou de imprudência humana), as doenças (físicas ou mentais) e a violência. Este tripé é o que protagoniza, vez ou outra e em menor ou maior grau, o sofrimento da humanidade.

Rotulamos de mal o tsunami da Ásia, o terremoto do Haiti, furacões nos EUA e enchentes no Brasil. Tais manifestações da natureza, via de regra, fazem multidões de vítimas. Entretanto, "Acaso, pode alguém entender o estender-se das nuvens e os trovões do pavilhão de Deus? Eis que estende sobre elas o seu relâmpago e encobre as profundezas do mar. Pois por estas coisas julga os povos e lhes dá mantimento em abundância. Enche as mãos de relâmpagos e os dardeja contra o adversário. O fragor da tempestade dá notícias a respeito dele, dele que é zeloso na sua ira contra a injustiça." (Jó 36:29-33).

E ainda: "Do SENHOR dos Exércitos vem o castigo com trovões, com terremotos, grande estrondo, tufão de vento, tempestade e chamas devoradoras." (Is 29:6). Perceba que, se tais catástrofes são obras que promovem a justiça de Deus, isto é bom e louvável. Por conseguinte, o que poderíamos dizer diante do cego de nascença (Jo 9:1-3) ou do falecido Lázaro (Jo 11:1-4), senão que as duas condições eram terrivelmente tristes e más? Contudo, leia no último versículo dos próprios textos supracitados o porquê comum que ambos tiveram para sofrer daquele modo. Era para que todos soubessem que Jesus era o messias e que vinha da parte de Deus.

Exatamente! A glória de Deus é a outra centelha e motivo que produz sofrimentos transitórios, a fim de que, depois de finalizados estes sofrimentos, estes produzam reconhecimento. Foi o que aconteceu nos casos acima e o que provavelmente ocorreu com os egípcios depois das dez pragas e do episódio do mar Vermelho: "Endurecerei o coração de faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército; e saberão os egípcios que eu sou o SENHOR. Eles assim o fizeram." (Ex 14:4). E assim também é com nossas angústias e aflições. Elas nos fazem reconhecer quem somos e quem Ele é. Leia Romanos 5:1-4 e 2 Coríntios 4:7-11.

E a terceira causa mais popular das dores resume-se na correção paterna. "Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?" (Hb 12:6,7). Não se enquadram nesta espécie de sofrimento aqueles a quem Deus não tem por filhos. Por isto, grande alegria esta correção deve produzir em nós, posto que ela confirma a nossa filiação e, além disto, podemos ter a certeza de que depois de bater, Deus irá assoprar (Jó 5:17,18).

Por ora, o homem continua sendo responsável pelo que almeja e faz. Satanás prossegue sendo o promovedor da perversidade. Mas tudo isto - não hesite em crer - tem o seu lugar nos planos de Deus. É a eterna ambivalência que comporta no mesmo tempo-espaço a coexistência antagônica entra a soberania divina e a responsabilidade humana e maligna. Deus deseja a permanência de um "mal" transitório na humanidade, a fim de que, através desta maldade, Ele possa demonstrar o seu amor em salvar e cuidar dos homens para os quais Ele tem planos. Mas isto é conversa para um livro. Aqui estamos circunscritos.

Contudo, é mister ressaltar que Deus possui uma soberania absoluta e que, portanto, tudo o que acontece, o que não acontece e o que poderia ou não acontecer, são realidades que desaguam, de um jeito ou de outro, em sua vontade transcendente. Precisamos nos alimentar mais de conteúdo bíblico para alterarmos a nossa infantil observação dos fatos, começando a enxergar o caráter divino nos mesmos ou nos aquietando com a ignorância. Sobretudo, se um mesmo Sol pode amolecer a cera e endurecer o barro, por que um mesmo Deus não pode agir com o bem e reagir com o "mal"?

ALTRUÍSMO - A centelha da Missão Integral

É de se espantar que, mesmo diante de todo o conteúdo dos quatro evangelhos a respeito da assistência ao necessitado, a Teologia da Missão Integral ainda continue sendo rotulada de marxista, de versão protestante da Teologia da Libertação e de conjunto de medidas populistas, como se o Evangelho não fosse as boas novas do povão e como se Jesus tivesse lido o Manifesto Comunista ou outras literaturas posteriores para formular a sua proposta de experiência cristã, ou seja, que o altruísmo deve estar presente em todas as relações humanas.

Sobretudo, ser altruísta na concepção de Cristo significa possuir uma virtude que vai bem mais além do que simplesmente “pensar nos outros” ou até “amar como a si mesmo”. Para o mestre, o padrão deve ser estendido ao “amem uns aos outros assim como EU AMEI vocês” (Jo 13:33-35). Esta perspectiva nos ajuda a compreender que o amor ao próximo não está restrito a uma dimensão interna e sentimental, mas que se expande à atitude de priorizar, de se abnegar, de partilhar e de, quando necessário, se despir para que o outro se vista.

Em síntese, mediante os princípios da necessidade e proporcionalidade, o altruísmo cristão consiste em ações como: dar ou emprestar a quem pede (Mt 5:42); desfazer-se da excessividade dos bens e dar aos pobres (Mt 19:21; Lc 12:33); receber e acolher aqueles a quem o mundo despreza (Lc 14:12-14); repartir o pão com o faminto, cobrir o nu e amparar o pobre desabrigado (Is 58:7). Assim sendo, haverá a igualdade ambicionada por Paulo com relação aos que semearam bem e estão em abundância e aos que não semearam e estão em sobrecarga (2 Co 8:12-14).

A meu ver, é inadmissível pensar que textos como estes, ou são tratados como relativos ao contexto de Jesus ou ignorados no afã de gerar um desencargo de consciência tal que a Igreja possa se sentir à vontade na sociedade onde está inserida, sem, contudo, interferir nas realidades com as quais convive. Se em Israel, os mais vulneráveis eram os órfãos, as viúvas, os estrangeiros e os enfermos, é necessário saber que a dilatação do reino produzida na cruz, abrangerá as mazelas sociais existentes em todo o mundo. A Igreja precisa colocar a candeia sobre a mesa.

É isto mesmo que você entendeu. Iluminar o mundo com a luz de Cristo não é uma tarefa meramente teórica ou que reside no âmago de púlpitos, congressos e sacramentos. Estes elementos são relevantes para os encontros, a manutenção e o progresso do corpo. Mas esta é apenas uma das missões eclesiásticas. A outra e, em minha opinião, a mais importante e complexa, é tentar alcançar os da rua, da praça, das esquinas de bordeis e motéis, dos lugares mais recônditos e periféricos, pois estes são os pobres a quem Jesus estava aconchegando (Mt 11:5).

Mas aí você poderia pensar: a tarefa da Igreja é somente pronunciar oralmente a mensagem da cruz, pois a assistência social, hospitalar, habitacional e alimentar, são funções dos governos e de suas políticas e conjunturas. Eu tenho o imenso prazer de lhe asseverar que este é um grande equívoco. E, por incrível que pareça, foi o mesmo erro que os discípulos cometeram após um dos sermões do mestre. Eles queriam despedir a multidão, deixando-a à mercê de suas próprias condições para se alimentar no caminho. Mas Jesus os repreendeu: “Dai-lhes vós mesmos de comer." (Mt 14:15-16).

Esta é a finalidade da Teologia da Missão Integral, isto é, o que ela propõe é uma união deste altruísmo material com a proclamação oral do Evangelho. Neste sentido, a TMI consegue conciliar a verbalização da mensagem de Cristo com o auxílio àqueles que precisam ser alcançados ou mantidos, de modo que nas comunidades cristãs haja o mínimo de dignidade para todos e que, no mundo, os invisíveis da sociedade sejam enxergados e socorridos por tais comunidades. Se “nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”, o oposto também é verdadeiro.

E não pense você que este socorro deverá ser perpétuo, inibindo a livre iniciativa de trabalho ou a independência financeira do socorrido. É óbvio que este amparo é tão transitório quanto a carência que o solicitou e que sua razão de existir navega pela nobre vontade de proporcionar o progresso individual às pessoas, a fim de que, posteriormente, haja nelas a satisfação e a honradez de gerarem os seus próprios meios. O maná, as roupas e as sandálias que não gastam, têm seu tempo de vida útil idêntico ao período de permanência no deserto.

Por conseguinte, perceba que quando Jesus estava tecendo o sermão do monte, ele não se esqueceu de relacionar aquilo que, em um sentido restrito, nos é essencial para existir e viver com decência: alimentação e roupas (Mt 6:25-33). E foi exatamente destes itens que João Batista (Lc 3:10,11) e Tiago (Tg 2:14-16) se apropriaram, a fim de ensinar ao seu público que a promoção da justiça através das obras é um fator que complementa a concepção da verdadeira fé, pois ambas são tão harmônicas, que uma sem a outra se torna uma peça morta da engrenagem.

Contudo, a integralidade da Missão de Jesus não acaba por aí. Além de alimentos e vestes, Cristo por duas vezes ampliou a extensão de sua missiologia até o custeio de abrigo e hospitalidade para com os que precisam de acolhimento (Mt 25:35-45; Lc 10:33-35). A partir daí, podemos perceber que sua abordagem sempre nos ensina um caminho de evangelização e discipulado que abrange a totalidade do homem, de forma que as urgências inerentes à pessoa humana devam ser solucionadas, primeira e principalmente, pela Igreja, seja de modo espiritual ou material.